
Pergunta: Que é o sofrimento?
Krishnamurti: Investiguemos a questão. Existe a dor física, que gradualmente se converte em sofrimento mental, do qual a mente se serve para criar situações, (…) problemas. E há, também, o sofrimento que nos vem de não sermos amados suficientemente, isto é, da nossa necessidade de amor; e há o sofrimento ocasionado pela morte, quando amamos alguém e essa pessoa se vai para sempre; há o sofrimento causado pela frustração, (…) que resulta do sermos ambiciosos e não podermos alcançar o alvo (…); há sofrimento quando perdemos os nossos haveres, a nossa saúde.
(…) Quando vos tornais cônscio de que estais fechado, aprisionado, isso não é sofrimento? Não existe sofrimento quando estais cônscio de vós mesmo, de vossas batalhas, vossas lutas, vossas frustradas ambições? Quanto mais envolvido vos vedes nos conflitos do “eu”, tanto maior o vosso sofrimento. O sofrimento, por conseguinte, é uma reação do “eu”; e, para compreendermos bem o sofrimento, precisamos procurar compreender, na íntegra, o processo do “eu” (…)
E qual é a finalidade da vida? Desejo mostrar-vos que, para preencherdes a vida, como eu a preenchi, deveis acolher alegremente em vossos corações toda experiência, quer agradável, quer desagradável, para que façais vossa vida completa (…)
Temeis o sofrimento, julgando-o terrível, humilhante. A experiência do sofrimento dá-vos força, força para vos sustentar na luta (…) Acolhei de todo o coração o sofrimento; não o rejeiteis; porque o sofrimento traz o perfume da compreensão, ele é o criador da afeição e vos põe numa harmonia imensa com a vida. A dor e o prazer, o mal e a virtude só têm significação quando determinamos o nosso alvo; (…) nos dá constantemente a ajuda de sua compreensão.
A tristeza não purifica. Quando a mente que está estagnada, narcotizada, adormecida pelas crenças, peada pela limitações, é despertada pelo movimento da vida, a esse despertar chamamos sofrimento. Quando se perturba a nossa segurança pela ação da vida, a isso chamamos sofrimento.
(…) Porque sofreis, dizeis que procurais a felicidade; a busca da felicidade, portanto, é uma fuga ao sofrimento. Só pode haver felicidade quando cessa a causa do sofrimento; a felicidade é, pois, um elemento acessório, e não um fim em si. A causa do sofrimento é o “ego”, com o seu desejo de expansão, de vir a ser, de ser diferente do “que é”.
Desejais “progresso” e felicidade ao mesmo tempo, e aí é que está a dificuldade (…). Desejais a expansão do “ego”, mas sem o conflito e o sofrimento que inevitavelmente a acompanham. Temos medo de nos ver assim como somos; procuramos fugir da realidade e a essa fuga chamamos “progresso” ou busca da felicidade.
(…) Conhecer a causa do sofrimento, e transcendê-la, significa encará-la, frente a frente, e não buscar refúgio em ideais ilusórios ou outras atividades do “ego”. A causa do sofrimento é a expansão do “ego”. (…)
Quando não há o observador que sofre, o sofrimento está separado de vós? Vós sois o sofrimento. Não estais separado da dor, sois a dor. Que acontece, então? Já não lhe colocais um rótulo, já não lhe dais nome, varrendo-a assim para um lado; sois simplesmente aquela dor, aquele sofrimento, aquela agonia. Quando a sois, que acontece? (…) Se o centro está em relação com ela, está com medo dela. (…) Mas, se o centro é ela, que fazeis então? Não há nada que fazer, há? (…) Dizeis então que sofreis? Por certo, ocorreu uma transformação fundamental. Não há mais “eu sofro”, porque não há mais um centro para sofrer.
O problema, portanto, é este: podemos extinguir a tristeza, o sofrimento, pelo esforço, por um processo de pensamento? Compreendei que não me estou referindo por ora ao sofrimento fisiológico, à enfermidade dolorosa, mas, sim, ao sofrimento psicológico. (…) A dor física pode ser vencida pelo esforço, pelo investigar das causas da doença. Podem o sofrimento, a dor, a ansiedade, a frustração, os inúmeros males psicológicos ser vencidos pelo esforço, pelo pensamento? Temos, pois, em primeiro lugar, de indagar o que é sofrimento, o que é esforço, o que é pensamento.
Que é, pois, o sofrimento? Não é o desejo de vir a ser, com todas as suas frustrações? O sofrimento não é resultado do nosso desejo de ser diferente do que somos? As ações baseadas nesse desejo não conduzem à desintegração, ao conflito, à interminável onda de confusão? Assim, a tristeza, o sofrimento, é o desejo de vir a ser (…) Ora, pode esse desejo de vir a ser (…) extinguir-se por meio do esforço? É o que tentamos fazer (…)
(…) Eu sou isto e quero tornar-me aquilo. Essa mudança, esse movimento de mudar (…) chama-se esforço. (…) Mas o oposto é a continuação do que sou, sob forma diferente. Assim, pois, o oposto, no qual há sempre esforço, é a continuidade modificada do seu próprio oposto. (…) E pode o pensamento, (…) o processo do pensamento, pôr fim ao sofrimento?
(…) Que é então que faz cessar o sofrimento? Quando compreendeis o processo do pensamento, (…) do esforço, (…) da memória, (…) quando estais cônscios desses três processos, que acontece então? (…) Não há justificar nem identificar. Estais simplesmente cônscios. (…) Agora, (…) sem os três processos a funcionarem no sentido de vencê-lo, sem condenação, vereis então que surge uma passividade vigilante, um percebimento passivo (…) Estais muito vigilante; (…) e nessa lucidez há perceptividade, quietude, tranqüilidade, observação livre de preconceito (…); e vereis, então, como o sofrimento chega ao fim. (…)
O sofrimento perverte e deforma a mente. O sofrimento não é o caminho da Verdade, da Realidade, de Deus (…) Temos tentado enobrecê-lo, dizendo-o inevitável, necessário, alegando que traz a compreensão, etc. Mas a verdade é que, quanto mais intensamente uma pessoa sofre, tanto mais ansiosa se torna de fugir, de criar uma ilusão, de encontrar uma saída. Parece-me, pois, que a mente sã, saudável, deve compreender o sofrimento e ficar completamente livre dele. E isso é possível?
Uma das causas principais do conflito é a existência de um centro, um ego, “eu”, resíduo de todas as lembranças, (…) experiências, (…) conhecimentos. E esse centro está sempre tratando de ajustar-se ao presente (…) Está sempre a traduzir tudo o que encontra nos termos daquilo que já conhece. (…) Por conseguinte, ele modifica o presente, (…) criando assim o futuro. E nesse processo do passado que traduz o presente e cria o futuro, se acha aprisionado o “eu”, o ego. (…)
fonte: http://www.krishnamurti.org.br